Liderança
Experiência não é apenas tempo de função
Anos de função e evolução profissional não são a mesma coisa. Nuno Forte propõe avaliar a experiência pelas decisões, problemas e responsabilidades enfrentados.

Anos de experiência e anos de evolução são diferentes
O tempo numa função é uma informação útil, mas não explica sozinho a qualidade da experiência profissional. Duas pessoas podem ter ocupado o mesmo cargo durante dez anos e ter percursos de aprendizagem completamente diferentes. Uma pode ter repetido processos semelhantes; a outra pode ter enfrentado mudanças, assumido decisões difíceis e desenvolvido novas capacidades.
É por isso que contar anos não chega. Para compreender a experiência de alguém, é necessário perceber a que situações essa pessoa esteve exposta, que responsabilidade assumiu e o que aprendeu com as consequências das suas decisões.
A experiência não é apenas tempo acumulado. É transformação acumulada.
O que acelera a aprendizagem profissional?
Problemas reais, decisões e responsabilidade tornam a aprendizagem mais profunda. Quando uma pessoa precisa de resolver uma situação sem uma resposta evidente, é obrigada a observar, ponderar alternativas, agir e avaliar o resultado. Esse ciclo cria conhecimento que dificilmente nasce apenas da repetição.
Os erros também fazem parte deste processo, desde que sejam reconhecidos e transformados em melhoria. Errar sem refletir gera repetição; errar, compreender e corrigir gera evolução. A maturidade profissional revela-se na capacidade de assumir consequências, ajustar o comportamento e aplicar a aprendizagem numa situação futura.
O desenvolvimento acelera sobretudo quando existe uma combinação de quatro fatores:
- Exposição a desafios diferentes, que impede a dependência de respostas automáticas.
- Autonomia para decidir, acompanhada por objetivos e limites claros.
- Responsabilidade pelo resultado, incluindo a análise do que correu bem e do que falhou.
- Reflexão sobre a experiência, para converter acontecimentos em conhecimento aplicável.
Como avaliar a experiência num processo de seleção?
Perguntar “há quantos anos faz isto?” ajuda a enquadrar um percurso, mas não revela como a pessoa pensa nem como reage perante a dificuldade. Perguntas sobre situações concretas produzem informação mais relevante.
Em vez de olhar apenas para a duração de uma função, uma organização pode perguntar:
- Que problema difícil teve de resolver?
- Que decisão tomou com informação incompleta?
- Que erro alterou a sua forma de trabalhar?
- Que responsabilidade assumiu para além da descrição da função?
- O que consegue fazer hoje que não conseguia fazer há dois anos?
As respostas permitem identificar raciocínio, consciência, capacidade de adaptação e sentido de responsabilidade. Também ajudam a distinguir quem esteve presente durante vários anos de quem evoluiu efetivamente ao longo desse período.
A experiência na liderança mede-se pelo impacto
Na liderança, a diferença torna-se ainda mais evidente. O valor de um líder não depende apenas do número de anos em cargos de gestão, mas da qualidade das equipas que ajudou a desenvolver, dos problemas que conseguiu antecipar e da capacidade de decidir sem perder de vista as pessoas e o negócio.
Um percurso com menos anos pode conter mais aprendizagem quando inclui crescimento rápido, contextos diversos e responsabilidade real. Da mesma forma, uma carreira longa mantém todo o seu valor quando demonstra curiosidade, adaptação e evolução contínua.
O objetivo não é desvalorizar o tempo. É interpretá-lo melhor. A antiguidade pode trazer conhecimento, memória organizacional e domínio técnico, mas esses ativos tornam-se mais relevantes quando continuam acompanhados por aprendizagem.
Como transformar tempo em evolução
As empresas podem criar condições para que a experiência não se limite à repetição. Projetos transversais, contacto com diferentes áreas, objetivos exigentes, feedback claro e formação ligada a desafios reais ajudam as pessoas a ampliar a sua capacidade.
Também é importante reconhecer quem resolve problemas e partilha o que aprendeu. Uma organização evolui mais depressa quando o conhecimento deixa de estar apenas na experiência individual e passa a fortalecer a equipa.
Para cada profissional, a pergunta útil não é apenas quanto tempo passou. É o que mudou durante esse tempo: que competências foram construídas, que decisões passaram a ser tomadas com maior qualidade e que impacto foi criado.
Quando avaliamos experiência, devemos perguntar não apenas “há quantos anos faz isto?”, mas também “o que já teve de resolver?”.
Esta reflexão foi desenvolvida a partir de uma publicação original de Nuno Forte no Instagram, publicada a 31 de agosto de 2026.